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Quinta-Feira, 8 de Março de 2012

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BICICLOWN: GERRY NÃO O TRATES POR CLOWN
Com pontualidade britânica começou a apresentação do meu projeto numa concorrida sala do politécnico de Christchurch, a cidade que há já quase um ano, sofreu um grande terramoto que acabou com a vida de quase 200 pessoas e deixou sem casa milhares. Ao saudar a audiência comecei a sentir o solo mover-se. Agarrei-me ao pequeno estrado mas olhei para os assistentes à procura de salvação. Toda a sala começou a rir-se, decerto por ver a minha cara de puro pânico.

Desde que ocorreu o grande terramoto que transformou a vida de todos, a até então, aprazível e ajardinada cidade da ilha do sul de Nova Zelândia, mais de 10.000 pequenos terramotos ocorreram. Os seus habitantes já parecem habituados. Pelo menos os que eu conheci estes dias. O centro histórico da cidade desapareceu. Não posso deixar de comparar o que vejo com o que vivi no Japão durante o tsunami. A dor pelas enormes perdas humanas e a capacidade do povo japonês para suportar a dor, com pinceladas de estoicismo, contrastam com a notória insatisfação dos habitantes de Christchurch a ver como, após quase um ano desde o terramoto, a cidade continua vestida de escombros. Até ao ponto do Ministro Gerry acusar do atraso o presidente de Christchurch, Parker classificando-o de palhaço. Bastante injusto pois nunca se viu que os palhaços se insultem entre si tratando-se por políticos.

No mesmo diário, The Press, de novo aparece a palavra Clown. É para se referir ao espanhol que percorre o mundo de bicicleta e oferece sorrisos para aliviar penas. O jornalista elevou a 5 o número de malárias de que padeci em África e também me elevou à condição de notário. Na realidade eu só trabalhei para um notário, não como notário. Enfim, o certo é que para além de aparecer na imprensa, ser entrevistado na Rádio pública deste país e em alguma outra rádio de menor alcance, não consegui contactos para fazer o espetáculo a favor das pessoas que sofreram com o terramoto de Christchurch, como era minha intenção. Alguns habitantes escreviam-me para saber de mim, para pedir-me que atuasse no aniversário da sua filha e outros para que fosse entreter os seus alunos na escola. Lamentavelmente (e apesar de não ser fácil de fazer compreender às pessoas) preservo o meu "clown" para situações em que as pessoas estejam a sofrer. Situações de desamparo, de dor humana, de injustiça social, de violência, de fome..., de necessidade de amor. Não digo que haja ou deixe de haver tal em Christchurch o na Nova Zelândia. Como disse muitas vezes, para fazer felizes os outros, primeiro temos que ser felizes, nós mesmos. Eu sou, apesar de a falta de resposta de algumas instituições públicas ou privadas, possa minar-me, por vezes, o moral.

Por isso não quero insistir demasiado neste tema e vou falar de coisas mais positivas. Como a gente, adorável, que me ajudou estes dias em Christchurch. Cecile e Dave, alojaram-me em sua casa. Representam, para mim, o típico casal kiwi. Ela francesa mas apaixonada por este país, ele kiwi que viajou pelo mundo (assim se conheceram) e que não duvida em deixar de trabalhar e meter-se no carro quase uma hora para jogar uma partida de rugby na outra ponta da cidade. Junto-me a ele e animo-me a praticar um desporto que me acompanhou muitos anos da minha vida. Tal como o recorda hoje a web da federação asturiana de rugby.

Outro tipo excecional que conheci foi o Nigel. Um homem com ar de artista que organizou a minha apresentação na sala do politécnico que tremeu com um pequeno terramoto de escala 4. Na sala havia muitos membros de couchsurfing, a web que utilizo às vezes para resolver os problemas de alojamento e que me permitiu conhecer gente maravilhosa. Estas pessoas não só se interessaram em comprar o dvd do sorriso do nómada, mas até uma mulher me deu um pote de mel.

Assim que, com os dedos um pouco pegajosooooooos escrevo a crónica desta semana antes de partir para a costa oeste da ilha sul de Nova Zelândia. Daí seguirei até ao parque nacional de Abel Tasman e, com sorte, voltarei a cruzar-me com Pablo García: o argentino que percorre, há 10 anos o mundo de bicicleta. O meu encontro com ele na Mongólia fecha as páginas do meu último livro ?Onde termina o asfalto? que, a julgar pelas críticas recebidas até agora, está a cumprir as expectativas criadas.

E apenas uns minutos antes de me ir deitar, a cama move-se de novo. Outro pequeno terramoto agita o meu coração e o dos habitantes de Christchurch. Mas, no quarto ao lado, Cecile e Dave riem-se.

Desde as antípodas, Paz e Bem, o biciclown.




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